Rainhas e Reis


De que vale estar ricamente vestido
Se alguém se comporta como um fraudador diante do divino?
A louça pintada fingindo ser ouro reluz como chumbo
Quando a luz nela bate.

Não construa um barco pensando unicamente
Em dele tirar proveito;
Peça o preço da passagem ao rico
E faça passar gratuitamente o pobre.

Não dissocie o coração de sua língua,
E assim todos os seus feitos chegarão a bom termo.
Mantenha a firmeza no coração. Fortaleça-o.
Não conduza o navio com sua língua.
Embora a língua do homem possa tornar-se o leme do barco,
É o Senhor da totalidade que deve ser seu piloto.

Amenemope
Faraó Egípcio



Navegando num magnífico navio, a Rainha de Sabá estava a caminho da Terra de Israel, em visita ao Rei Salomão – o mais sábio de todos os homens.

De repente, ela prendeu a respiração, pois uma visão de insuperável esplendor atraiu seu olhar. Ao longe, viu uma estrela deslumbrante surgindo das espumas do mar. À medida que se aproximava, a estrela emergente parecia ir se transformando numa linda flor, faiscando com o brilho de muitos matizes e cores.

"Não pode ser outro senão o famoso Palácio de Cristal," exclamou a Rainha de Sabá. Ansiava por ver esta deslumbrante obra.

"Apressem-se!" ordenou, impaciente, aos remadores.

Finalmente o navio ancorou junto à praia de uma pequena ilha. Lá a Rainha de Sabá e seu séquito foram saudados por uma hoste de arautos e oficiais, que se postavam dos dois lados da alameda que levava ao palácio. Entre eles destacava-se um homem , cujas vestes reais, porte e maneira, superavam todos os outros em beleza e nobreza.

"Ora veja, descobri o Rei Salomão," pensou ela, enquanto se ajoelhava graciosamente diante do nobre varão.

"Por que te ajoelhas, Ó Rainha?" perguntou ele.

"Pois não és tu o grande Rei Salomão?"

"Não, Majestade; sou apenas um de seus oficiais aqui enviado para dar-te as boas-vindas às nossas pacíficas praias. E agora, sobe na carruagem real, minha Rainha e eu te levarei ao Rei.
"Oh," pensou a Rainha de Sabá, "se um simples servo de Salomão é tão nobre assim, o rei deve ser verdadeiramente divino!"

As portas da sala do trono foram escancaradas, Na soleira permaneceu petrificada a Rainha de Sabá, totalmente maravilhada! Estava num palácio feito do mais puro cristal. A luz do sol se infiltrava nas transparentes paredes que a difundiam em mil brlhantes matizes. Cada jóia na coroa, no trono e no cetro reais atraia a luz como um imã e a refletia em empolgante esplendor. Ao longe, podia-se vislumbrar o mar azul que, através das paredes translúcidas, dava a impressão de que o palácio estava construído sobre as suas ondas.

Finalmente a Rainha de Sabá encontrou palavras para expressar a sua admiração:

"Se eu não estivesse neste salão contigo, pensaria que teu trono se erguia sobre as próprias águas do mar."

Então ela avançou lentamente através da grande sala real para receber a saudação e a bênção do Rei Salomão. Após a troca de cumprimentos a Rainha tomou assento num lugar de honra junto ao trono e dirigiu as seguintes palavras ao Rei:

"Tu grangeaste amplo renome por tua sabedoria. Deixa que te proponha algumas adivinhações para ver se de fato és tão sábio como todo mundo afirma.

"Podes perguntar, minha Rainha," disse o Rei Salomão.

A Rainha de Sabá colocou o primeiro enigma:

"Dize-me, sábio Rei Salomão, 
Que águas são essas, que não 
Nascem da pedra, chão ou monte. 
E embora venham da mesma fonte, 
Ora amargas, ora doces são?"

O Rei Salomão ficou pensativo por um momento e então respondeu: 

"As lágrimas não vêm do chão, 
E é doce o pranto da emoção
Feliz. Amargo é o pranto, 
Da dor, tristeza e desencanto."
A rainha sorriu diante da rápida resposta e logo lhe propôs outro:

"A minha mãe me deu um dia
Presentes dois – que alegria!
Um veio do alto mar infindo,
Guardado num estojo lindo.
O outro veio das entranhas
Escuras, fundas, das montanhas."

A resposta de Salomão veio quase sem qualquer hesitação:

"Finas pérolas, brilho irisado,
Ricos anéis, ouro lavrado.
Beleza pura e poder do ouro.

Rainha, adivinhei o teu tesouro?"

A pergunta era desnecessária, já que o Rei Salomão sabia que havia acertado a resposta do enigma. A Rainha de Sabá concordou sorridente e apresentou o terceiro:

"Rei, muito sábio, tu podes dizer:
Quem, sepultado vivo, no fundo
Da terra, longe do sol e do mundo
Morre – e no entanto, torna a viver?"

A sabedoria de Salomão não falhou também desta vez, quando respondeu:

"A sementinha sepulta no chão
Faz nascer a espiga, o dourado grão.
E aquele que ali a enterrou
Colheu boa safra e se regalou."

A Rainha de Sabá prosseguiu:

"O que é que gira alegre no ar:
Caindo do céu no chão, sua pureza
Se vai e morre toda a beleza?"

O Rei Salomão respondeu:

"A neve, caindo do céu distante,
Desce à terra, leve e dançante.
O homem pisa na sua brancura.
E acaba com a sua beleza pura."

A Rainha de Sabá não resisitiu à vontade de fazer mais uma pergunta:

"Dize-me, Rei e responde-me logo:
Dádiva da natureza ao fogo,
Que rios ocultos sob terra e monte,
O homem bendiz; e bendiz sua fonte?"

O Rei então respondeu:

"Dum solo da mais rica natureza,
Brota, faiscante, da profundeza,
Óleo precioso, que então alimenta
O fogo que ao mundo ilumina e esquenta."

A Rainha de Sabá estava maravilhada com a sabedoria do Rei Salomão e as suas perspicazes respostas. Pensou bastante numa maneira de espantá-lo e finalmente disse aos seus servidores:
"Vamos pegar os meninos e meninas que trouxe comigo e os vestiremos com roupas extamente iguais. Então veremos se o Rei será capaz de distinguí-los uns dos outros."

Dito e feito. A Rainha trouxe um grande grupo de crianças diante do Rei Salomão. Estavam todas vestidas exatamente iguais. Era impossível distinguir os meninos das meninas só pelo olhar. O Rei Salomão deveria inventar uma maneira de separá-los.

Examinou pensativo as crianças paradas à sua frente. Súbito, chamou seus servos e mandou que trouxessem baldes com água e os colocassem diante de cada criança.
"Agora, queridas crianças, só o que precisam fazer é lavar suas mãos com a água que mandei colocar à sua frente."

Mas o Rei Salomão avisara seus servos para não fornecer toalhas a elas.

O Rei observava as crianças enquanto cumpriam sua ordem. Quando terminaram de lavar as mãos, olharam em volta mas não viram as toalhas. Algumas criancas começaram a secar as mãos nos seus aventais.

O Rei Salomão pensou: "Essas são meninas, porque elas estão acostumadas a enxugar as mãos nos aventais; mas os outros, parados sem jeito, com a água pingando das mãos, certamente são os meninos!"

Então o Rei mandou todos os meninos ficarem de um lado do seu trono, e as meninas do outro lado e disse à Rainha de Sabá:

"Aqui à minha direita estão os meninos e à esquerda, as meninas."

A Rainha de Sabá não podia conter sua admiração pela sabedoria do Rei Salomão. Dirigindo-se aos seus astrólogos e conselheiros, exclamou:

"Estou tão feliz de ter feito esta longa viagem para ver o Rei Salomão, pois ele é na verdade o mais sábio de todos os homens!"

E então a Rainha de Sabá desceu de sua cadeira e curvou-se ajoelhada diante do trono do Rei.

"Tu és abençoado por D’u, pois nenhum mortal jamais andou sobre a terra com tal sabedoria como a tua," disse a Rainha reverentemente.

"Levanta-te, minha Rainha," disse o Rei. "Vamos à recepção que preparei em tua honra."

No suntuoso salão de banquetes estavam reunidos os ministros de Estado e os homens sábios do Sanhedrin que o Rei havia convidado para o festim.

Quando a rainha de Sabá entrou, viu o magnífico salão de refeições, as mesas faiscando de ouro e prata, carregadas de finos manjares, as vestes suntuosas que envergavam o Rei e seus cortezões e os nobres e veneráveis semblantes de todos os presentes, ficou cheia de espanto e admiração pelo esplendor da corte do Rei Salomão. Nos seus sonhos mais arrojados ela não imaginara nem metade do esplendor e da sabedoria que veio a conhecer.

"Bendito seja o Deus de Israel!" exclamou a Rainha de Sabá.





A rainha Esther é uma das sete profetizas do povo judeu e sua história é contada no Livro de Esther- popularmente chamado de "Meguila" - lido em Purim em todas as sinagogas . A história de Esther se passa durante o reinado de Assuero, rei da Pérsia, que, segundo Rashi, era Xerex , sucessor do rei Ciro e que governou o Império Persa durante os 70 anos de exílio do povo judeu.


O Livro de Esther conta que o rei Assuero costumava comemorar anualmente a data de sua ascensão ao trono com um suntuoso banquete no qual reunia em seu palácio todos seus súditos : ministros, servos, nobres, militares dos exércitos da Pérsia e da Média. A tradição conta que o palácio era tão grande, que abrigava milhares de convidados com seus servos e empregados. Nenhum convidado bebia duas vezes na mesma taça .O vinho servido tinha sempre um ano a mais que o convidado a quem era destinado e era produzido por vinhedos de seu próprio país. No terceiro ano de seu reinado, mensageiros - falando as 70 línguas conhecidas na época- foram enviados por todo o reino para convidar para mais uma festa que costumava durar 180 dias .


Num deste dia após uma discussão entre os persas e medos, sobre qual dos dois povos teria as mais belas mulheres, Assuero quis mostrar aos convidados que sua mulher, a rainha Vashti, originária da Caldéia, era a mais bela entre todas as mulheres. Mandou, então, buscá-la e para mostrar sua lendária beleza, pediu, publicamente, que viesse completamente nua, usando somente a coroa real. Mas, Vashti se recusou a comparecer da forma pedida suscitando a ira do rei. Assuero, então, consultou seus ministros sobre o que fazer com a rainha.

Estes afirmaram que a rainha Vashti não só se rebelou e ofendeu o rei, mas também aos príncipes presentes à comemoração. O rei não poderia deixá-la impune, pois se o fato se tornasse do conhecimento das outras mulheres elas poderiam seguir o exemplo e desobedecer aos maridos. O rei, então, repudia Vashti e manda executá-la, incumbindo seus ministros de encontrar candidatas de igual beleza para sucedê-la.

Os ministros mandaram trazer de todas as partes do reino, mesmo dos lugares mais distantes, todas as mulheres jovens e bonitas, não importando se eram casadas ou solteiras. Os delegados reais de cada região reuniam-nas, às vezes, contra própria vontade e o rei mandava buscá-las e levá-las ao palácio real.

Em Shushan, a capital do Império Persa, havia um judeu da tribo de Benjamim que se chamava Mordechai, que acolhera em sua casa sua sobrinha Hadassa, após a morte dos pais.

Hadassa que passou para nossa historia pelo nome de Esther era uma linda moça a quem Mordechai criara como se fosse sua própria filha.

Alguns sábios acreditam que o nome Esther foi acrescentado mais tarde e significa "a escondida" ou "aquela que esconde", pois ela ocultou sua religião perante o rei, seu marido, durante muito tempo.

Eu respiro o doce sopro,
Que sai da tua boca;
Eu vejo tua beleza, todo o dia;
É meu desejo ouvir a tua doce voz,
Semelhante ao vento do norte;
De sentir meus membros revigorados,
Pela tua vida e pelo teu amor.
Dá-me tuas mãos,
Que seguram teu espírito,
Que eu possa receber,
E viver por meio dele.
Chama meu nome à Eternidade,
E ele não perecerá jamais.”

Akhenaton


Eu respiro o doce sopro,

Que sai da tua boca;

Eu vejo tua beleza, todo o dia;

É meu desejo ouvir a tua doce voz,

Semelhante ao vento do norte;

De sentir meus membros revigorados,

Pela tua vida e pelo teu amor.
Dá-me tuas mãos,
Que seguram teu espírito,
Que eu possa receber,
E viver por meio dele.
Chama meu nome à Eternidade,
E ele não perecerá jamais.”

Akhenaton  





Akhenaton - Um Marco na História da Humanidade
 se recusava a tomar atitudes de guerra, acreditando poder conquistar seus inimigos com o poder do amor de Aton.


"Akhenaton era um homem inebriado de divindade, cujo espírito respondia com uma sensibilidade e inteligência excepcionais, as manifestações de Deus em si. Um espírito que teve força de disseminar idéias que ultrapassavam o âmbito da compreensão de sua época e dos tempos futuros"



O fim dramático da aventura amarniana é devido a circunstâncias políticas e históricas que não diminuem em nada o valor do ensinamento de Akhenaton. Se é inegável que o fundador da cidade do sol, a cidade da energia criadora, entrou em conflito com os homens que ele queria unir pelo amor de Deus, não é menos verdade que ele abriu uma nova concepção sobre esta luz que a cada instante se oferece aos homens de boa vontade.
Sua experiência foi uma tentativa sincera de perceber a Eterna Sabedoria e de torná-la perceptível a todos. A coragem que demonstrou na luta constante por seus ideais, sem dúvida, fez dele um marco eterno na história da humanidade.
A história de Akhenaton mostra, mais uma vez, que um homem melhor faz um meio melhor, e que a força de sua convicção em seu objetivo altera a vida do meio, seja ele uma rua, um bairro, uma cidade, um país.... o Universo. Para isto, há de se ter Coragem!




(PRECE DE AKHENATON AO DEUS UNIVERSAL) (XVIII Dinastia Egípcia - 1365 A.C.)
" - Ó Criador de Toda a Vida, que apareces na Perfeição da Tua Beleza,

Quão múltiplas são as Tuas obras,

Ó Deus Único, Senhor de toda a Eternidade!

Do Teu Espírito emanam todas as criaturas!

Só o Teu Amor, a Tua Bondade, governam todas as coisas.

Na Natureza estão os Teus Pensamentos,

Pois Tu estás na folha da grama,

no grão de areia,

No raio de luz que flutua no céu,

Assim como no Todo sem fronteiras!

- Ó Tu que vives eternamente:

Aspiro novamente o doce aroma que vem da Tua boca;

Dia após dia,

O meu coração contempla a Tua Beleza.

Tenho desejo incontidos de novamente ouvir a Tua meiga Voz

e necessito, com todas as forças do meu ser,

que os meus passos sejam guiados pela beleza da Tua Imorredoura Luz!

- Ó Tu que planas acima de todos os firmamentos:

Dá-me as Tuas mãos, que sustentam o teu Espírito

Que eu possa recebê-Lo

e viver somente por intermédio Dele;

Lembrar Teu nome,

Por toda a Eternidade,

Pois Ele não perecerá jamais!



Com o seu lendário carisma, sua beleza venerada e poder, ela é uma das mulheres governantes mais fascinantes do Egito Antigo: Nefertiti.



Nefertiti — por mais de uma década ela foi a mulher mais influente do Egito. Reverenciada pelo seu povo, ela reinou lado a lado de Amenófis IV, governante da 18.ª dinastia do Novo Reino, que mudou seu nome para Akhenaton depois de subir ao trono em 1353 a.C. Entretanto, praticamente nada se sabe sobre a linda rainha. Ela simplesmente desapareceu da história. Isso aconteceu aproximadamennte em 1336 a.C, quando ela devia ter 30 anos de idade.




A beleza de Nefertiti era tal que outros aspectos da sua personalidade foram eclipsados pela sua aparência física. Contudo, a importância política e religiosa dessa rainha se evidencia nas representações de sua imagem.
Casada com Akhenaton, que conferiu-lhe o poder, tinha uma influência tão grande que chegava a ser representada com coroa dupla, símbolo do poder do faraó. Hoje é cultuada como semi-deusa.
 Pouco se sabe do destino da esposa de Akhenaton. Não há registros de sua morte. Nem mesmo a sua tumba — até recentemente não havia sido encontrada.

Nefertiti e os Mistérios Sagrados do Egito


Trecho transcrito do livro: Nefertiti e os Mistérios Sagrados do Egito.
Autora: Chiang Sing (pseudônimo de Glycia Modesta de Arroxellas Galvão). Ed. do Conhecimento.

Em seus passeios matinais, quando o orvalho ainda brilhava nas folhas e nas flores do jardim real, Nefertiti e Akhnaton, tocados pelo seu idealismo religioso, costumavam iniciar as princesinhas nos segredos da natureza, por meio de histórias singelas de um mundo de maravilhas.

(...)

O rei emergiu lentamente da profundeza de seus pensamentos, e começou a falar:

- Bem longe, lá pelas bandas do Eufrates, perto das terras de Shutarna, rei de Mitani, viviam sete sábios muito velhos na corte de um rei muito bom e muito rico. Um dia, os sábios se reuniram no palácio e o rei contou-lhes que uma estrela maravilhosa lhe aparecera em sonhos, sob a forma de uma donzela, formosa como a primeira névoa da manhã. E ela disse ao rei: “Gostaria de viver entre o seu povo, ó rei, pois amo a sua terra e a sua gente. Pergunte aos sete sábios da corte qual a forma que devo tomar e onde devo surgir para viver tranqüila entre aqueles a quem amo!”

(...)

- Os sábios pensaram um pouco e responderam: “Deixemos que a donzela estrela faça a escolha. Ela será bem-vinda sob qualquer forma e em qualquer lugar onde apareça”. E naquela noite, o rei olhou para o céu tentando distinguir qual daquelas estrelas tinha lhe aparecido em sonhos. Como era impossível saber, ele orou para a donzela estrela e foi dormir. E assim, naquela mesma noite, a estrela desceu do céu e pousou mansamente sobre as águas frias do lago que havia no Palácio Real. Na manhã seguinte, quando o rei acordou e olhou para o lago ficou deslumbrado. Seu coração descompassadamente e seus olhos encheram-se de lágrimas. O ago estava todo florido de lótus brancos, azuis e rosados. Os pássaros cantavam. As borboletas voavam alegres por entre os juncais e o ouro das acácias, mas nenhuma ousava pousar nas flores de lótus, cujas pétalas delicadas lembravam a forma de uma estrela. As raízes dessas flores celestiais estavam fincadas no lodo que havia bem no fundo do lago, mas suas hastes verdes atravessavam o cristal sereno das águas, suas folhas se abriam para o beijo da brisa e suas flores emergiam na superfície para receber a bênção dos raios divinos do Sol, o divino Aton, de quem eram mensageiras.

(...)

Mas logo, levado pela emoção, Akhnaton esqueceu de que estava falando para um público infantil e sua memória evocou as palavras iniciáticas da Casa da Luz:

- A estrela-flor era o emblema dos poderes criadores, da ideação divina do senhor do disco. Representava também o ser humano que, enraizado no lodo de suas paixões, eleva a haste dos seus ideais acima das águas nebulosas do astral e da atmosfera diáfana de sua mente, para abrir a corola de seu coração aos eflúvios da essência divina do Cosmo.

Toda a existência da estrela-flor se desenrolou no fundo das águas, numa espécie de sonolência, até o momento nupcial, em que passou a viver uma nova vida. Então, ela desenvolveu lentamente a larga espiral de seu pistilo, subiu, emergiu das águas e abriu-se na superfície clara do lago. Da margem vizinha, assim que a viu, um lótus-príncipe sentiu-se enamorado, atraído para um novo mundo de sonhos pela mágica sucessão daquela estrela-flor.

O lótus-príncipe foi se aproximando, mas, no meio do caminho, teve de parar porque o talo que sustentava era curto e não lhe permitia chegar até onde resplandecia maravilhosamente a estrela-flor. Seu coração sentiu o drama terrível do desejo inatingível, da fatalidade transparente. Semelhante drama era quase tão insolúvel como o nosso próprio drama sobre a Terra.

Mas eis que de repente surge uma nova e inesperada circunstância. Com um esforço galante, ele rompeu heroicamente o laço que o ligava à vida para voar até as alturas do seu ideal sublime. Cortou sua própria haste, e num incomparável impulso, entre pérolas de alegria, suas pétalas surgiram na superfície das águas... feridas de morte; porém livres e rutilantes, elas flutuam um instante ao lado de sua amorosa esposa.

A união das duas flores se realiza, mas logo após o lótus-príncipe desmaia sobre as águas e morre, enquanto a brisa leva o seu corpo até a margem do lago. A estrela-flor, já fecundada pelo amor do lótus-príncipe, cerra suas pétalas, onde ainda pairavam os amantes eflúvios do lótus-príncipe, enrola seu pistilo e volta a descer até o fundo do lago, para chorar sua mágoa e amadurecer o fruto de um amor heróico e sem limites.

Existem homens que, tal como a estrela-flor, fazem descer os frutos do espírito até o lodo de sua vida inferior. Todo homem, e toda mulher, é uma estrela...

Akhnaton calou-se. Seus olhos sonhadores estavam fixos no horizonte, onde brilhavam os raios divinos do Sol.


 Helena Geren

 

O AMOR DE AKHENATON E NEFERTITI
"É teu este livro, vida de minha vida, alma de minha alma. Faz dele o que quiseres, mas, permite, ó lua, filha da noite mais bela, cujos raios prateiam as águas do Nilo, em cujas margens, sob seu fulgor, amam-se tantos seres como nós, filhos de Aton, o indivisível, o eterno, como eterno será o nosso amor, que te divinize. Amo-te, donzela de pele alva e macia como o melhor dos melhores papiros, e, perdoa este pobre amante, por amar mais Aton que a ti. Vens, logo em seguida, pois, lírio perfumado, Ele te criou e deuma para mim. Sagrado seja Teu nome, pois, entre as que foram criadas, és a melhor escultura, és Dele a obra-prima.
És uma garça, altiva e serena, e és a graça que tive a ventura de ter. Amo-te, não importando a distância que o tempo nos condenou...
Senhora, que é o tempo para tão grande amor? Demos, ao tempo, tempo para, outra vez, nos unir... Não importa onde, ou quando. Fui rei, quero ser o mais humilde dos párias, a teu lado. Não há tempo, nem espaço, sejam quais forem os desvios do destino, eu te espero. Quero-te como sempre quiz e, o meu amor vencerá toda a eternidade, mais duradouro que os monumentos, por nosso povo, erigidos. Amada maior que a maior das pirâmides, crê- és alma de minha alma, és essência de minha essência, pois que procedemos de um outro mundo, onde as moneras ( menor partícula do espírito ), já existiam...Crê , Esfinge, por mim, tens amor decifrado. As almas gêmeas já existiam antes de nós, Akhenaton e Nefertiti viverem. Pouco importa o corpo no qual, agora, teu espirito anime, o nosso amor independe . Por que? porque somos um pedaço do outro e, então, o que me importa o que seja eu e tu? Os nossos espíritos já se conheciam, mercê de Deus . Pouco importa o tempo que estejamos separados, e que nossas almas conheçam outras... nós, nascidas do mesmo tálamo, estaremos juntas um dia.. O meu Deus, O Onipresente, o Incognicível, jamais criaria um espírito só, para animar um só corpo, mas, sim, dois da mesma essência, para que, em sucessões de vidas, conhecessem tudo; os prazeres, as desditas, para, depois, mercê Dele, juntos, proclamem, abraçando-se e beijando-se- viva o nosso Deus, que nos permitiu andar, viajar pela eternidade, trabalhando, ajudando, sofrendo, gritando, para, enfim, nos encontrarmos, e então, alma de minha alma, estaremos juntos, e estaremos em paz. Sorria, pois que em breve estaremos juntos. Ambos resgatamos o mal a que a nós mesmos fizemos. Viva Deus, meu amor, que nos pôs na escola da vida para aprendermos a amá-lo, enaltecendo e valorizando o nosso amor.
Amo-te."

Extraido do livro:Akhenaton, o filho do sol
De Luiz Carlos Carneiro

Cleópatra foi a última Rainha da Dinastia ptolomaica que dominou o Egito após a Grécia ter invadido aquele país. Filha de Ptolomeu XII com sua irmã, ela subiu ao trono egípcio aos 17 anos de idade, após a morte do pai. Contudo, ela teve que dividir o trono com seu irmão, Ptolomeu XIII (com quem casou), e depois, com Ptolomeu XIV.
Cleópatra foi uma das mulheres mais conhecidas da história da humanidade e um dos governantes mais famosos do Antigo Egito, sendo conhecida apenas por Cleópatra, ainda que tivessem existido outras Cleópatras a precedê-la, e que permanecem desconhecidas do grande público.

Nunca foi a detentora única do poder no seu país - de fato co-governou sempre com um homem ao seu lado: primeiramente o seu pai, o seu irmão (com quem casaria mais tarde) e, depois, com o seu filho.

Em todos estes casos, os seus companheiros eram apenas reis titularmente, e, dela era a autoridade de fato.

Segundo conta a lenda, para conquistar César, ela enrolou-se em um tapete, que fez chegar até ele como presente. Quando ela saiu lá de dentro, o romano ficou maravilhado diante de tanta beleza e graça.

Cleópatra era uma mulher extraordinária e pouco comum. Era possuidora de uma beleza deslumbrante, acompanhada de um encanto pessoal e muita sensualidade. Enquanto alguns lhe atribuem inteligência, cultura e poder, também é descrita como uma mulher astuta, ambiciosa, manipuladora e algumas vezes, perversa. Em outras ocasiões apresentava-se como uma mulher fatal, amiga das orgias e liberta para o prazer. Com tantos atributos, Cleópatra era considerada a rainha exótica por excelência, em função de sua origem oriental.



Cleópatra, última rainha do Egito, representa o símbolo da sedução com seus rituais perfumados. Além de conquistar o coração do general romano Marco António, conseguiu dele a promessa de uma aliança com Roma. Ao que parece, ela era muito mais atraente do que propriamente bonita, e sabia, acima de tudo, como perfumar-se. Untava-se com essências aromáticas dos pés à cabeça, criava em torno de si uma aura perfumada e recebia Marco António numa cama repleta de pétalas de rosas.
Seus requintes eram incríveis: ela impregnava de odor de rosas até as velas de seu barco, e viajou ao encontro do amante inteiramente untada de óleos perfumados, como uma deusa em forma humana, deslizando sobre as águas. Em sua célebre visita a Roma, a rainha do Egipto deixou um rastro de rosas por onde passou, e na sua última noite no mundo dos mortais, antes de envenenar-se, banhou-se e perfumou-se da cabeça aos pés com as mais finas fragrâncias. Quando os soldados romanos a encontraram morta em seus aposentos, ainda puderam sentir seu perfume inebriante, feito sob encomenda para seu status real




Rainha-faraó Hatsheput


A rainha-faraó Hatsheput, durante todo seu reinado teve seu direito ao trono posto em dúvida por tratar-se de uma mulher que reclamou para si o papel masculino do Deus Sol.
Hatshepsut é uma personagem extraordinariamente importante,
 pois representa o poder da mulher em uma sociedade totalmente dominada por homens.
Este faraó feminino abandonou a guerra e fez o Egito voltar a atividades pacíficas, tais como a construção de grandes monumentos e manutenção das rotas de comércio com o exterior, 
que tinham sido fechadas durante o domínio dos hicsos.





"Toco o céu,

Minha cabeça atravessa o firmamento,

Roço o ventre das estrelas,
Conheço a alegria celeste,
Danço como as constelações."

(texto da morada da eternidade do príncipe Sarenput, em Assuão – 
sul do Egito – tirado do livro 'Fila e o último templo pagão')




Um Novo Começo






Em todas as épocas, os homens procuraram reunir todo o conhecimento e experiência de seus dias num conjunto compacto que explicaria a relação deles com o universo e suas possibilidades nele. De uma forma simples, nunca obtiveram êxito. A unidade das coisas não é perceptível à mente comum num estado comum de consciência. Desviada pelas incontáveis e contraditórias orientações da natureza humana, a mente comum reflete um mundo tão múltiplo e confuso quanto o próprio homem. Uma unidade, um modelo, um significado que tudo engloba - se ele existe - poderia apenas ser discernido ou experimentado por um tipo diferente de mente, num diferente estado de consciência. Seria perceptível apenas por uma mente que tivesse ela mesma se tornado unificada.
Que unidade, por exemplo, poderia ser percebida mesmo pelo mais brilhante físico, filósofo ou teólogo que, enquanto viaja distraidamente em seu assento, zanga-se ao receber um troco inferior ao esperado, não se dá conta do quanto irrita sua mulher e, de maneira geral, permanece sujeito à trivial cegueira da mente comum que trabalha com sua habitual falta de atenção? Qualquer unidade alcançada em tal estado poderia existir apenas em sua imaginação.
Assim, a tentativa de reunir todo o conhecimento num único conjunto sempre esteve ligada à procura de um novo estado de consciência. E ela não teria significado e seria fútil se estivesse desconectada de tal busca.
Talvez pudéssemos dizer que as poucas tentativas que obtiveram êxito e chegaram até nós mostram sinais de serem unicamente produtos secundários de tal busca, quando ela alcançou sucesso. Os únicos convincentes modelos do universo em existência são aqueles deixados por homens que evidentemente alcançaram uma relação com o mundo e sua consciência dele, completamente diferente daquela pertencente à experiência comum.
Tais modelos do universo devem não apenas apresentar a forma interna e a estrutura deste, mas revelar também a relação do homem com ele, seu momento presente nele e seu possível destino dentro dele. Nesse sentido, algumas catedrais góticas são completos modelos do universo, enquanto que um planetário, à parte toda sua beleza, conhecimento e exatidão, não o é. Ele omite por completo o homem. Naturalmente, a diferença reside no fato de que as catedrais foram direta ou indiretamente projetadas por homens que pertenciam a escolas para o alcance de estados mais elevados de consciência e que tinham a vantagem da experiência adquirida nessas escolas, enquanto que os projetistas do planetário são cientistas e técnicos que, embora inteligentes e qualificados o bastante em suas áreas, não podem pretender um conhecimento particular das potencialidades da máquina humana com a qual têm que trabalhar.
Na verdade, se possuíssemos determinadas chaves para sua interpretação, o fato mais surpreendente com respeito a esses antigos ‘modelos do universo’ que surgem em épocas, continentes e culturas bastante separadas entre si seria precisamente a sua similaridade. Tanto que esse seria um bom argumento para defender a idéia de que uma consciência de ordem superior sempre revela a mesma verdade, baseando-se unicamente no estudo comparativo de outros modelos do universo existentes e que parecem derivados dela - por exemplo, a Catedral de Chartres, a Grande Esfinge, o Novo Testamento, a Divina Comédia ou certos diagramas legados pelos alquimistas do século XVII, os desenhistas das cartas do Tarô e os pintores de ícones russos e estandartes tibetanos.
Uma das principais dificuldades no caminho de tais estudos comparativos reside no fato de que todos esses modelos estão expressos em diferentes linguagens, e isso, para a mente comum e despreparada, implica que linguagens diferentes expressem verdades diferentes. Esta é, na verdade, uma ilusão característica do estado em que o homem se encontra. Mesmo uma pequena melhoria em sua percepção revela, pelo contrário, que a mesma linguagem, a mesma formulação pode encerrar compreensões diametralmente opostas, enquanto que linguagens e formulações que à primeira vista nada têm em comum podem de fato se referir à mesma coisa. Por exemplo, embora as palavras ‘honra’, ‘amor’ e ‘democracia’ sejam universalmente usadas, é quase impossível encontrarmos duas pessoas que lhes atribuam o mesmo significado. Ou seja, diferentes usos da mesma palavra podem ter significados bastante incompatíveis. Por outro lado - por mais estranho que possa parecer tal pensamento -, a Catedral de Chartres, um maço de cartas de tarô e certos bronzes de divindades tibetanas profusamente armadas e com muitas cabeças são de fato formulações exatas das mesmas idéias; isto é, são exatamente compatíveis.
Faz-se assim necessário considerar neste ponto a questão da linguagem em relação com a construção de um modelo do universo, do delineamento de um padrão de unidade. Fundamentalmente, a linguagem ou forma de expressão está dividida de acordo com o quanto ela recorre a uma ou outra função do homem, familiar ou potencial. Uma determinada idéia pode ser expressa, por exemplo, em linguagem filosófica ou científica, apelando à função intelectual do homem; pode ser expressa em linguagem religiosa ou poética, o que apela à sua função emocional; pode também ser expressa em rituais e danças, a fim de apelar à sua função motora; e pode até mesmo ser expressa por meio de aromas ou posturas físicas, para apelar à sua fisiologia instintiva.
Naturalmente, os melhores ‘modelos do universo’ criados pelas escolas no passado, aspiravam combinar tais formulações do que desejavam expressar em muitas linguagens, de modo a afetar muitas ou todas as funções ao mesmo tempo e, assim, compensar parcialmente a contradição entre os diferentes aspectos da natureza do homem, à qual já nos referimos. Na catedral, por exemplo, foram combinadas com êxito as linguagens da poesia, postura, ritual, música, aroma, arte e arquitetura; e algo similar parece ter sido feito nas dramáticas representações dos mistérios de Elêusis. Em outros casos ainda, como na Grande Pirâmide, por exemplo, a linguagem da arquitetura parece ter sido usada não apenas pelo simbolismo de sua forma, mas com o intuito de criar na pessoa que atravessasse a construção num determinado sentido, séries definidas de choques e impressões emocionais, as quais continham significações em si mesmas e eram calculadas para poder revelar a real natureza da pessoa exposta a elas.
Tudo isso se refere ao uso objetivo da linguagem, isto é, ao uso de uma linguagem definida para evocar uma idéia definida com conhecimento prévio do efeito que se criará, da função que será afetada e do tipo de pessoa que responderá a ela. Outra vez temos que admitir que tal uso objetivo da linguagem não é conhecido ordinariamente - exceto, talvez, numa forma elementar de propaganda - e cujo mais elevado uso pode apenas se derivar, direta ou indiretamente, do conhecimento adquirido em estados de consciência mais elevados.
Paralelas a essas linguagens reconhecíveis pelo homem por meio de suas funções comuns, existem outras formas de linguagem que procedem e que apelam a funções supra-normais, isto é, funções que podem desenvolver-se no homem, mas das quais ele ordinariamente não desfruta. Há, por exemplo, a linguagem de uma função emocional superior na qual a formulação tem o poder de evocar um grande número de significados, sejam eles simultâneos ou sucessivos. Algumas das mais belas poesias, cuja profundidade jamais se esgotará e que sempre revelam algo de novo quando lidas, nunca serão plenamente compreendidas e podem pertencer a essa categoria. Mais evidentemente, os Evangelhos estão escritos em tal linguagem e, por essa razão, cada versículo evoca a uma centena de homens uma centena de significados diferentes, mas nunca contraditórios.
Na linguagem de uma função emocional superior - e, em particular, na função intelectual superior -, os símbolos desempenham um papel muito importante. Estes se baseiam na compreensão de verdadeiras analogias entre um cosmos maior e outro menor, onde uma forma, função ou lei num cosmos é utilizada para insinuar formas, funções e leis correspondentes em outros cosmos. Essa compreensão pertence exclusivamente a uma função superior ou potencial do homem e deve produzir sempre uma sensação de confusão e até de frustração quando pretendemos alcançá-la com funções comuns, tais como são as do pensamento lógico.
No entanto, graus mais elevados de linguagem emocional não requerem nenhuma expressão externa e, por isso mesmo, não podem ser mal interpretados.
Essa digressão sobre a linguagem é necessária para explicar em parte a forma do presente livro. Porque este também, devemos admiti-lo, pretende ser um ‘modelo do universo’ - isto é, um conjunto ou um desenho do conhecimento de que dispomos, disposto de forma a demonstrar um todo ou uma unidade cósmica.
Está certamente envolto em linguagem científica e por isso se dirige primordialmente à função intelectual e a pessoas nas quais tal função predomina. Na verdade, o autor reconhece que essa linguagem é a mais lenta, a mais tediosa e, em alguns sentidos, a mais difícil de seguir de todas as linguagens. A da poesia, dos mitos e dos contos de fadas, por exemplo, penetraria mais profundamente e poderia levar as idéias com muito mais força e fluidez à compreensão emocional do leitor. Talvez mais tarde seja possível uma tentativa nessa direção.
Ao mesmo tempo, o leitor acostumado à linguagem e pensamento científicos encontrará dificuldades. O uso livre que se faz da analogia em todo o livro poderá parecer-lhe uma incongruência. E, para seu proveito, é melhor dar aqui a explicação mais completa possível e de antemão esboçar um sincero reconhecimento dos defeitos desse método.
Uma das principais características do pensamento moderno é uma contradição entre o modo que o homem olha para o mundo externo, fora de si mesmo, e o modo como ele olha o mundo interno, dentro dele.
Com relação ao mundo externo, ele não podia ser mais objetivo, mais convincente da aplicação universal das leis, expressas por fórmulas e consistentemente mensuráveis em seus efeitos. Nesse campo, qualquer crença que traga dúvidas ao princípio de mensurabilidade, por exemplo, ou qualquer crença na inteligência e consciência de seres numa escala maior que a do homem estão em perigo de serem olhadas como superstição.
Com relação ao mundo interno, por outro lado, o homem raramente foi mais subjetivo, mais convencido da validade de seus caprichos, imaginação, esperança e medo e pouco disposto a admitir que seu mundo interno está sujeito a leis, pura e simplesmente. A maior parte da moderna psicologia, e especialmente a psicanálise, está baseada nessa subjetividade. E, nesse campo, é precisamente a crença em leis e mensurabilidade - por exemplo, a crença de que muito da psicologia humana é o resultado de calculadas interações de tipos, ou a crença de que o mundo interno do homem está sujeito a leis similares àquelas que governam os mundos astronômicos ou microscópicos - que é chamada superstição.
Houve períodos em que a inteligência foi vista como a regra principal em ambos os campos, como, por exemplo, no início da Idade Média. E houve outros períodos em que uma lei imutável era vista como tal, como, por exemplo, no racionalismo do século XVIII. Mas talvez nunca tenha havido um período em que houvessem tão evidentes contradições nas atitudes do homem perante os dois.
Quando encontramos essa contradição no cotidiano, ou seja, quando encontramos um homem que julga o mundo ao redor dele por um padrão e a si e suas ações por outro bastante diferente, tomamos isso como sinal de um ponto de vista primitivo e inculto. E, ainda que essa mesma contradição seja a principal característica do pensamento geral de nossa época, nós a chamamos de iluminação ou emancipação. Não vemos que aí reside a raiz de tanta cegueira, infelicidade, decepção e falência moral, como se fosse um caso individual.
Uma das metas deste livro é precisamente sanar essa contradição - olhar para o homem e sua vida interna do mesmo ponto de vista que olhamos para o universo; e olhar para o universo do mesmo ponto de vista que olhamos para o homem e sua vida interna. Se a tentativa parece superstição, ela deve-se, ao menos em parte, ao tempo, que é o verdadeiro culpado.
Em nossa tentativa de reconciliar o mundo interno e o externo, de qualquer modo, chegamos a uma dificuldade bastante real e que deve ser confrontada. Essa dificuldade está conectada com o problema do reconciliar métodos diferentes de conhecer. O homem tem dois caminhos para estudar o universo. O primeiro é por indução: ele examina um fenômeno, classifica-o e tenta inferir leis e princípios a partir dele. Esse é o método geralmente utilizado pela ciência. O segundo é por dedução: tendo percebido, revelado ou descoberto certas leis gerais e princípios, ele tenta deduzir aplicações dessas leis em vários estudos especializados e na própria vida. Esse é o método geralmente utilizado pela religião. O primeiro método começa com ‘fatos’ e tenta alcançar ‘leis’. O segundo começa com ‘leis’ e tenta alcançar ‘fatos’.
Esses dois métodos pertencem ao trabalho de diferentes funções humanas. O primeiro é o método da mente lógica comum, que está permanentemente disponível para nós. O segundo deriva-se de uma função em potencial no homem, geralmente inativa por falta de energia nervosa de intensidade suficiente e que podemos chamar de uma função mental superior. Essa função, nas raras ocasiões em que atua, revela ao homem leis em ação; ele pode ver o mundo fenomênico como o produto de leis.
Todas as formulações verídicas de leis universais procedem recente ou remotamente do trabalho dessa função superior em algum lugar e em algum homem. Ao mesmo tempo, para a aplicação e a compreensão de leis reveladas no decorrer de grandes espaços de tempo e cultura, quando tal revelação não está disponível, o homem tem de apoiar-se na mente lógica comum.
Isso de fato é reconhecido hoje no pensamento científico. Em sua Natureza do Universo (1950), Fred Hole escreve: “O procedimento em todos os ramos da física, seja na teoria da gravidade de Newton, na do eletromagnetismo de Maxwell, na da relatividade de Einstein ou na do quantum, é o mesmo em sua raiz. Ele consiste de dois passos. O primeiro é supor, por algum tipo de inspiração, um conjunto de equações matemáticas. O segundo é associar aos símbolos empregados nas equações quantidades físicas mensuráveis.”1 A diferença entre essas duas mentes não poderia ter sido melhor colocada.Mas aqui o grande dilema da compreensão humana surge. Essas duas mentes nunca podem compreender-se uma à outra. Há grande diferença de velocidade entre elas. Assim como é impossível, devido às suas diferenças de velocidade, a comunicação entre um camponês caminhando por uma estrada com uma carga de lenha e um automóvel que cruza por ele a cento e oitenta quilômetros por hora, também é impossível a comunicação entre a mente lógica e a mente superior. Para a mente lógica, os traços deixados pela mente superior parecerão arbitrários, supersticiosos, ilógicos e improváveis. Para a mente superior, o trabalho da mente lógica parecerá pesado, desnecessário e fora do assunto tratado.2
De modo comum, essa dificuldade é superada mantendo-se esses dois métodos separados, dando-se a eles diferentes rótulos e diferentes campos de ação. Os livros de religião ou os de matemática superior, que lidam com leis e princípios, abstêm-se de empregar o método indutivo. Livros de ciência, que lidam com acumulações de fatos observados, abstêm-se de presumir leis adiantadamente. E, desde que diferentes pessoas escrevam e leiam livros de uma espécie ou outra, ou que as mesmas pessoas os leiam com partes bastante diferentes de suas mentes, os dois métodos conseguem conviver juntos sem muito atrito.
No presente livro, contudo, os dois métodos são empregados simultaneamente. Certos grandes princípios e leis do universo, que encontraram expressão em diferentes países e em todas as épocas e que, de tempos em tempos, são redescobertos por homens individuais por meio do trabalho momentâneo de uma função superior, têm aqui sua ênfase. Deles se fazem deduções que descendem do mundo fenomênico comumente acessível a nós principalmente pelo método analítico. Ao mesmo tempo, faz-se uma tentativa de estudar e classificar ‘fatos’ e fenômenos a nosso respeito e, por inferência, ordená-los de modo que tais classificações nos conduzam ascendentemente por leis abstratas que descendem do alto.
Pela razão dada acima, que eles derivam de funções diferentes e com velocidades totalmente diferentes, os dois métodos de fato nunca se encontram. Entre deduções admissíveis das leis gerais e inferências admissíveis dos fatos, resta sempre uma zona invisível, onde ambas deveriam unir-se, mas tal união permanece sempre invisível e improvável.
Por essas razões, o autor está pronto a admitir que o projeto do presente livro - que procura reconciliar os dois métodos - talvez seja inviável. Percebe também que uma tentativa dessa ordem envolve inevitavelmente uma espécie de prestidigitação, quase um truque. E também percebe que esse malabarismo não enganará o cientista profissional, ligado exclusivamente ao método lógico.
Ao mesmo tempo, está convencido, por um lado, de que a ciência contemporânea, sem princípios, encaminha-se para uma especulação e um materialismo cada vez mais obtusos; e, por outro lado, que princípios religiosos ou filosóficos, não coordenados com o pensamento científico que caracteriza nossa época, podem hoje suscitar interesse apenas numa minoria. Essa convicção persuade-o a assumir o risco. Aqueles que utilizam exclusivamente o método lógico nunca estarão satisfeitos com os argumentos dados, os quais - admitamos - contêm defeitos lógicos e vazios. Por outro lado, para aqueles que estão dispostos a aceitar os dois métodos, esperamos apresentar provas suficientes que tornem possível a cada leitor tentar ultrapassar por si mesmo o vazio entre o mundo dos fatos cotidianos e o mundo das grandes leis.
Essa tarefa não poderia ser realizada em nenhum livro, nem seria um número maior de fatos ou conhecimento comumente disponíveis para a ciência, seja hoje ou no futuro, o que poderia torná-la possível. Mas, com ajuda e esforço, ela pode ser realizada por cada indivíduo para sua própria satisfação.
Entretanto, para o homem comum, interessado em seu próprio destino mas não particularmente na ciência, podemos apenas dizer num exame mais cuidadoso que ele talvez ache este livro não tão científico quanto parece. A linguagem científica é a linguagem da moda hoje, assim como a linguagem da psicologia era a linguagem da moda há trinta anos, a linguagem passional era a linguagem da época elizabetana e a religiosa era a linguagem da Idade Média. Quando as pessoas são induzidas a comprar creme dental ou cigarros por argumentos e explicações pseudo-científicas, evidentemente isso corresponde de alguma forma à mentalidade da época, e verdades devem também ser expressas cientificamente.
Ao mesmo tempo, isso não sugere que a linguagem científica utilizada é um disfarce, um fingimento ou falsificação. As explanações dadas são, até onde seja possível verificar, bastante corretas e correspondem aos fatos atuais.3 O que se afirma é que os princípios utilizados poderiam, com igual correção, ser aplicados a qualquer outra forma da experiência humana, com resultados de igual ou maior interesse. E são esses princípios que têm importância, mais do que as ciências às quais estão aplicados.
De onde vêm esses princípios? Para responder essa questão, torna-se necessário reconhecer meu débito a um homem e explicar de certa forma como esse débito se originou.
Encontrei Ouspensky pela primeira vez em Londres, em setembro de 1936, quando fazia leituras públicas. Essas ‘conferências’ tratavam de um sistema extraordinário de conhecimento que havia encontrado e que era impossível de comparar-se a qualquer outro que eu já havia conhecido. No entanto, o sistema não era novo; pelo contrário, dizia-se que era muito antigo, que sempre havia existido de forma oculta e que seus sinais de tempos em tempos podiam ser vistos surgindo na superfície da história, de uma forma ou de outra. Ainda que esse sistema explicasse de maneira extraordinária coisas incontáveis a respeito do homem e do universo que até então pareciam inexplicáveis, seu único propósito - como Ouspensky constantemente enfatizava - era auxiliar o homem a despertar para um plano diferente de consciência. Qualquer tentativa de utilizar esse conhecimento com propósitos diferentes ou mais ordinários era descartada ou proibida.
Mas, não obstante a perfeição surpreendente desse ‘sistema’ em si mesmo, ele nunca poderia separar-se por inteiro do ‘ser’ do homem que o expunha: o próprio Ouspensky. Quando alguma outra pessoa tentava explicá-lo, o ‘sistema’ degenerava-se, perdia qualidade de alguma forma. E ainda que ninguém pudesse neutralizar por completo a grande força das mesmas idéias, era claro que o ‘sistema’ não podia estar separado de um homem de certo nível inusitado de consciência e de ser. Somente um homem assim poderia suscitar nos outros as mudanças fundamentais de compreensão e de atitudes necessárias para alcançá-lo.
Esse ‘sistema’, na forma pura e abstrata em que foi originalmente transmitido, foi registrado pelo próprio Ouspensky em Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido. Qualquer um que desejasse comparar os princípios originais com as deduções que são feitas aqui deveria ler esse livro, assim poderá julgar por si mesmo se as aplicações e o desenvolvimento das idéias são legítimos ou não. E de fato, de certo ponto de vista, está em seu direito, por assim dizer.
Pessoalmente, sentia-me numa encruzilhada naquela época e, quando encontrei Ouspensky a sós pela primeira vez, em Gwyndyr Road, disse-lhe que era um escritor nato e pedi-lhe conselhos sobre os caminhos que se abriam ante mim. Disse-me então com muita sensatez: “Melhor que você não se comprometa muito, mais tarde podemos encontrar algo para que você escreva”.
Isso era típico da estranha confiança inspirada por Ouspensky, já que me pareceu uma resposta completa para meu problema, ou melhor, senti que não tinha mais porque me preocupar com aquilo, que um peso havia sido tirado de cima de mim. De fato, resultado dessa conversa, durante dez anos não escrevi praticamente nada. Havia demasiadas coisas a fazer. Mas, por fim, Ouspensky cumpriu sua promessa. E a maior parte do presente livro foi escrita nos dois meses que precederam imediatamente a sua morte, em outubro de 1947, como resultado direto do que ele procurava realizar e mostrar nesse tempo. Posteriormente, um segundo livro, que continua onde este acaba, foi escrito após sua morte.
Durante o intervalo de dez anos, Ouspensky expôs de várias formas - teórica, filosófica e prática - todos os diferentes aspectos do ‘sistema’. Quando cheguei, muitos dos que o rodeavam haviam estado estudando dessa forma, procurando penetrar até o resultado indicado por ele durante dez ou quinze anos e estavam capacitados a ajudar um recém-chegado como eu a entender muito do que era e do que não era possível. Infatigavelmente Ouspensky explicava, infatigavelmente nos mostrava nossas ilusões e nos sinalizava o caminho - ainda que tão sutilmente, que, se alguém não estivesse preparado para compreender, suas lições passavam despercebidas e somente anos depois podia-se recordar o incidente e dar-se conta então do que ele havia estado demonstrando. Métodos mais violentos podem ser possíveis, mas, em certas ocasiões, eles podem deixar feridas difíceis de cicatrizar, mesmo com o tempo.
Ouspensky nunca trabalhou para o instante. Poderíamos dizer com muita propriedade que não trabalhou nem mesmo para o tempo - trabalhou para a recorrência. Mas isso exige muita explicação. Em todo caso, era perfeitamente evidente que trabalhava e planejava com um sentido de tempo completamente diferente daquele que nós tínhamos, ainda que àqueles que o solicitavam impacientes, querendo alcançar resultados mais rápidos, ele sempre dissesse: “Não, o tempo é um fator. Não podemos deixá-lo de lado”.
Assim se passaram os anos. E, ainda que em verdade muito tivesse sido alcançado, com freqüência nos parecia que Ouspensky estava muito à frente de nós, que ele tinha algo do qual carecíamos, algo que para ele tornava práticas certas possibilidades que, para nós, continuavam sendo teóricas e que, à parte todas as suas explicações, não descobríamos como alcançar. Alguma chave essencial parecia haver-se perdido. Posteriormente, essa chave apareceu. Mas isso é outro assunto.
Ouspensky foi para a América durante a guerra. Em conexão com esse estranho desenvolvimento de possibilidades que ficou conhecido por ‘conferencias de Ouspensky’, lembro-me de como em Nova York, por volta de 1944, ele nos deu uma tarefa e disse que ela seria interessante para nós. Consistia em ‘classificar as ciências’ de acordo com os princípios que tinham sido expostos por meio do sistema; classificá-las ‘de acordo com o mundo que elas estudavam’. Referiu-se à última classificação das ciências - a de Herbert Spencer - e disse que, ainda que interessante, ela não era satisfatória nem do nosso ponto de vista, nem do ponto de vista de nosso tempo. Escreveu também a seus amigos na Inglaterra sobre essa tarefa. Uns cinco anos depois, quando o presente livro estava perto de ser terminado, percebi que ele era de fato uma resposta à tarefa de Ouspensky.
Ele voltou à Inglaterra em janeiro de 1947. Estava velho, doente e muito fraco. Mas também tinha algo a mais. Era um homem diferente. Muito da personalidade vigorosa, extraordinária e brilhante, aquela que seus amigos conheciam e da qual desfrutaram por tantos anos, tinha ficado para trás, e muitos daqueles que o encontraram novamente ficaram chocados e perplexos, enquanto, para alguns outros, foi dada uma nova compreensão do que era possível no caminho do desenvolvimento.
No começo da amarga primavera de 1947, ele organizou várias reuniões em Londres, para todos os que já o tinham ouvido e para outros que ainda não. Falava-lhes de uma forma nova. Disse-lhes que abandonava o sistema. Interrogou-os acerca do que desejavam, dizendo-lhes que apenas de tal base poderiam começar o caminho da lembrança de si e da consciência.
É difícil expressar a impressão criada. Por vinte anos na Inglaterra, antes da guerra, Ouspensky tinha quase que diariamente explicado o sistema. Tinha dito que tudo deveria referir-se a ele, que as coisas poderiam apenas ser compreendidas em relação a ele. Para aqueles que o haviam escutado, o sistema representava a explicação de todas as coisas difíceis, indicava o caminho para todas as coisas boas. Suas palavras e linguagem tornaram-se mais familiares que o idioma natal. Como eles poderiam ‘abandonar o sistema’?

Àqueles que ouviam com atitude positiva o que ele tinha a dizer-lhes, era como se um grande peso lhes tivesse sido tirado. Perceberam que, no caminho da evolução, o verdadeiro conhecimento deve primeiro ser adquirido e então abandonado. O que exatamente torna possível uma porta ser aberta talvez torne impossível a abertura da próxima. E alguns então pela primeira vez começaram a ter idéia de onde poderia estar aquela chave que estava faltando e que poderia levá-los ao lugar onde Ouspensky estava e eles não.
Depois disso, Ouspensky retirou-se à sua casa de campo, onde via poucas pessoas e raramente falava. Agora ele demonstrava e realizava em atos e em silêncio a mudança de consciência cuja teoria ele havia exposto por tantos anos.

A história daqueles meses não pode ser contada aqui. Mas, ao amanhecer de um dia de setembro, quinze dias antes de sua morte, após estranha e longa preparação, ele disse aos poucos amigos que estavam com ele: “Vocês devem começar outra vez. Devem fazer um novo começo. Devem reconstruir tudo por si mesmos do próprio início.”
Este era então o verdadeiro significado de ‘abandonar o sistema’. Todo sistema de verdade deve ser abandonado para que possa germinar outra vez. Ele os libertara de uma expressão da verdade que poderia ter-se tornado um dogma, mas, em vez disso, essa expressão iria gerar uma centena de formas vivas que terminaria por afetar vários aspectos da vida.

Mais importante do que tudo, ‘reconstruir tudo por si mesmo’ evidentemente significava ‘reconstruir tudo em si mesmo’, ou seja, criar realmente em si a compreensão que o sistema havia feito possível e alcançar a meta da qual ele falava - superando real e permanentemente a velha personalidade e adquirindo um novo nível de consciência.Assim, se o presente livro é tomado como uma ‘reconstrução’, é apenas uma reconstrução do conjunto de idéias que nos foi dado numa forma e linguagem particulares. Apesar de sua aparência científica, não tem importância alguma como compêndio de fatos científicos ou mesmo de uma nova maneira de apresentá-los. Qualquer significado que possa ter reside no fato de ele ser derivado, embora que de segunda mão, das reais percepções de uma consciência superior e na indicação de um caminho pelo qual tal consciência possa outra vez ser alcançada.
R.C.
Lyne, agosto de 1947
Tlalpam, abril de 1953